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"Renascem no país a esperança, a auto-estima e a confiança num futuro seguro que garanta bem-estar e prosperidade para os angolanos."

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das poesias

 

 

 

 

 
 

Retrato

Eu não tinha este rosto de hoje,
assim calmo, assim triste, assim magro,
nem estes olhos tão vazios,
nem o lábio amargo.

Eu não tinha estas mãos sem força,
tão paradas e frias e mortas;
eu não tinha este coração
que nem se mostra.

Eu não dei por esta mudança,
tão simples, tão certa, tão fácil:
- Em que espelho ficou perdida
a minha face?

"Mas a vida, a vida, a vida,/
a vida só é possível/reinventada"

(ilustração de Carol Ramos)

 

Balada das Dez
Bailarinas do Casino

Dez bailarinas deslizam
por um chão de espelho.
Têm corpos egípcios com placas
douradas,
pálpebras azuis e dedos vermelhos.
Levantam véus brancos, de ingénuos
aromas,
e dobram amarelos joelhos.

Andam as dez bailarinas
sem voz, em redor das mesas.
Há mãos sobre facas, dentes sobre
flores
e com os charutos toldam as luzes
acesas.
Entre a música e a dança escorre
uma sedosa escada de vileza.
As dez bailarinas avançam
como gafanhotos perdidos.
Avançam, recuam, na sala compacta,
empurrando olhares e arranhando o
ruído.
Tão nuas se sentem que já vão cobertas
de imaginários, chorosos vestidos.

As dez bailarinas escondem
nos cílios verdes as pupilas.
Em seus quadris fosforescentes,
passa uma faixa de morte tranqüila.

Como quem leva para a terra um filho
morto,
levam seu próprio corpo, que baila e
cintila.

Os homens gordos olham com um
tédio enorme
as dez bailarinas tão frias.
Pobres serpentes sem luxúria,
que são crianças, durante o dia.
Dez anjos anémicos, de axilas
profundas,
embalsamados de melancolia.

Vão perpassando como dez múmias,
as bailarinas fatigadas.
Ramo de nardos inclinando flores
azuis, brancas, verdes, douradas.
Dez mães chorariam, se vissem
as bailarinas de mãos dadas.

 
 

Lamento do oficial
por seu cavalo morto

Nós merecemos a morte,
porque somos humanos
e a guerra é feita pelas nossas mãos,
pelo nossa cabeça embrulhada em
séculos de sombra,
por nosso sangue estranho e instável,
pelas ordens
que trazemos por dentro, e ficam sem
explicação.

Criamos o fogo, a velocidade, a nova
alquimia,
os cálculos do gesto,
embora sabendo que somos irmãos.
Temos até os átomos por cúmplices, e
que pecados
de ciência, pelo mar, pelas nuvens, nos
astros!
Que delírio sem Deus, nossa
imaginação!

E aqui morreste! Oh, tua morte é a
minha, que, enganada,
recebes. Não te queixas. Não pensas.
Não sabes. Indigno,
ver parar, pelo meu, teu inofensivo
coração.
Animal encantado - melhor que nós
todos!
- que tinhas tu com este mundo
dos homens?

Aprendias a vida, plácida e pura, e
entrelaçada
em carne e sonho, que os teus olhos
decifravam...

Rei das planícies verdes, com rios
trêmulos de relinchos...

Como vieste morrer por um que mata
seus irmãos!

  Murmúrio

Traze-me um pouco das sombras
serenas
que as nuvens transportam por cima do
dia!
Um pouco de sombra, apenas,
- vê que nem te peço alegria.

Traze-me um pouco da alvura dos
luares
que a noite sustenta no teu coração!
A alvura, apenas, dos ares:
- vê que nem te peço ilusão.

Traze-me um pouco da tua lembrança,
aroma perdido, saudade da flor!
- Vê que nem te digo - esperança!
- Vê que nem sequer sonho - amor!


"e a guerra é feita pelas nossas mãos, pelo nossa cabeça embrulhada em séculos de sombra"
(imagem do famoso quadro Guernica, de Pablo Picasso)

 
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ABRIL/MAIO 2007
 
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