| Retrato
Eu não tinha este rosto de hoje,
assim calmo, assim triste, assim magro,
nem estes olhos tão vazios,
nem o lábio amargo.
Eu não tinha estas mãos sem
força,
tão paradas e frias e mortas;
eu não tinha este coração
que nem se mostra.
Eu não dei por esta mudança,
tão simples, tão certa, tão fácil:
- Em que espelho ficou perdida
a minha face?

"Mas a
vida, a vida, a vida,/
a vida só é possível/reinventada"
(ilustração de Carol Ramos)
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Balada das Dez
Bailarinas do Casino
Dez bailarinas deslizam
por um chão de espelho.
Têm corpos egípcios com placas
douradas,
pálpebras azuis e dedos vermelhos.
Levantam véus brancos, de ingénuos
aromas,
e dobram amarelos joelhos.
Andam as dez bailarinas
sem voz, em redor das mesas.
Há mãos sobre facas, dentes sobre
flores
e com os charutos toldam as luzes
acesas.
Entre a música e a dança escorre
uma sedosa escada de vileza.
As dez bailarinas avançam
como gafanhotos perdidos.
Avançam, recuam, na sala compacta,
empurrando olhares e arranhando o
ruído.
Tão nuas se sentem que já vão cobertas
de imaginários, chorosos vestidos.
As dez bailarinas escondem
nos cílios verdes as pupilas.
Em seus quadris fosforescentes,
passa uma faixa de morte tranqüila.
Como quem leva para a terra um filho
morto,
levam seu próprio corpo, que baila e
cintila.
Os homens gordos olham com um
tédio enorme
as dez bailarinas tão frias.
Pobres serpentes sem luxúria,
que são crianças, durante o dia.
Dez anjos anémicos, de axilas
profundas,
embalsamados de melancolia.
Vão perpassando como dez múmias,
as bailarinas fatigadas.
Ramo de nardos inclinando flores
azuis, brancas, verdes, douradas.
Dez mães chorariam, se vissem
as bailarinas de mãos dadas.
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