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"Renascem no país a esperança, a auto-estima e a confiança num futuro seguro que garanta bem-estar e prosperidade para os angolanos."

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das poesias

 

 

 

 
 

Encomenda

Desejo uma fotografia
como esta - o senhor vê? - como
esta:
em que para sempre me ria
como um vestido de eterna festa.

Como tenho a testa sombria,
derrame luz na minha testa.
Deixe esta ruga, que me empresta
um certo ar de sabedoria.

Não meta fundos de floresta
nem de arbitrária fantasia...
Não... Neste espaço que ainda resta,
ponha uma cadeira vazia.


"É preciso não esquecer nada:/nem a torneira aberta
nem o fogo aceso,/nem o sorriso para os infelizes/nem
a oração de cada instante"

 


"Traze-me um pouco da alvura dos luares"
(fotografia de obra de Cezanne)

 

Ísis

E diz-me a desconhecida:
"Mais depressa! Mais depressa!
"Que eu vou te levar a vida! . . .

"Finaliza! Recomeça!
"Transpõe glórias e pecados!..."
Eu não sei que voz seja essa

Nos meus ouvidos magoados:
Mas guardo a angústia e a certeza
De ter os dias contados...

Rolo, assim, na correnteza
Da sorte que se acelera,
Entre margens de tristeza,

Sem palácios de quimera,
Sem paisagens de ventura,
Sem nada de primavera...

Lá vou, pela noite escura,
Pela noite de segredo,
Como um rio de loucura...

Tudo em volta sente medo...
E eu passo desiludida,
Porque sei que morro cedo...

Lá me vou, sem despedida...
Às vezes, quem vai, regressa...
E diz-me a Desconhecida:

"Mais depressa"
"Mais depressa" . . .
Depois do sol...

Fez-se noite com tal mistério,
Tão sem rumor, tão devagar,
Que o crepúsculo é como um luar
Iluminando um cemitério...

Tudo imóvel... Serenidades...
Que tristeza, nos sonhos meus!
E quanto choro e quanto adeus
Neste mar de infelicidades!

Oh! Paisagens minhas de antanho...
Velhas, velhas... Nem vivem mais...
- As nuvens passam desiguais,
Com sonolência de rebanho...

Seres e coisas vão-se embora...
E, na auréola triste do luar,
Anda a lua, tão devagar,
Que parece Nossa Senhora

Pelos silêncios a sonhar...

 
 

Suavíssima

Os galos cantam, no crepúsculo
dormente...
No céu de outono, anda um langor final
de pluma
Que se desfaz por entre os dedos,
vagamente...

Os galos cantam, no crepúsculo
dormente...
Tudo se apaga, e se evapora, e perde, e
esfuma...

Fica-se longe, quase morta, como
ausente...
Sem ter certeza de ninguém... de coisa
alguma...
Tem-se a impressão de estar bem
doente, muito doente,

De um mal sem dor, que se não saiba
nem resuma...
E os galos cantam, no crepúsculo
dormente...

Os galos cantam, no crepúsculo
dormente...
A alma das flores, suave e tácita,
perfuma
A solitude nebulosa e irreal do
ambiente...

Os galos cantam, no crepúsculo
dormente...
Tão para lá!... No fim da tarde... além
da bruma...

E silenciosos, como alguém que se
acostuma
A caminhar sobre penumbras,
mansamente,
Meus sonhos surgem, frágeis, leves
como espuma...

Põem-se a tecer frases de amor, uma
por uma...
E os galos cantam, no crepúsculo
dormente...

 

Pássaro

Aquilo que ontem cantava
já não canta.
Morreu de uma flor na boca:
não do espinho na garganta.

Ele amava a água sem sede,
e, em verdade,
tendo asas, fitava o tempo,
livre de necessidade.

Não foi desejo ou imprudência:
não foi nada.
E o dia toca em silêncio
a desventura causada.

Se acaso isso é desventura:
ir-se a vida
sobre uma rosa tão bela,
por uma tênue ferida.
De um lado cantava o sol

De um lado cantava o sol,
do outro, suspirava a lua.
No meio, brilhava a tua
face de ouro, girassol!

Ó montanha da saudade
a que por acaso vim:
outrora, foste um jardim,
e és, agora, eternidade!
De longe, recordo a cor
da grande manhã perdida.
Morrem nos mares da vida
todos os rios do amor?

Ai! celebro-te em meu peito,
em meu coração de sal,
Ó flor sobrenatural,
grande girassol perfeito!

Acabou-se-me o jardim!
Só me resta, do passado,
este relógio dourado
que ainda esperava por mim...

 
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ABRIL/MAIO 2007
 
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