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Suavíssima
Os galos cantam, no crepúsculo
dormente...
No céu de outono, anda um langor final
de pluma
Que se desfaz por entre os dedos,
vagamente...
Os galos cantam, no crepúsculo
dormente...
Tudo se apaga, e se evapora, e perde, e
esfuma...
Fica-se longe, quase morta, como
ausente...
Sem ter certeza de ninguém... de coisa
alguma...
Tem-se a impressão de estar bem
doente, muito doente,
De um mal sem dor, que se não saiba
nem resuma...
E os galos cantam, no crepúsculo
dormente...
Os galos cantam, no crepúsculo
dormente...
A alma das flores, suave e tácita,
perfuma
A solitude nebulosa e irreal do
ambiente...
Os galos cantam, no crepúsculo
dormente...
Tão para lá!... No fim da tarde... além
da bruma...
E silenciosos, como alguém que se
acostuma
A caminhar sobre penumbras,
mansamente,
Meus sonhos surgem, frágeis, leves
como espuma...
Põem-se a tecer frases de amor,
uma
por uma...
E os galos cantam, no crepúsculo
dormente...
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Pássaro
Aquilo que ontem cantava
já não canta.
Morreu de uma flor na boca:
não do espinho na garganta.
Ele amava a água sem sede,
e, em verdade,
tendo asas, fitava o tempo,
livre de necessidade.
Não foi desejo ou imprudência:
não foi nada.
E o dia toca em silêncio
a desventura causada.
Se acaso isso é desventura:
ir-se a vida
sobre uma rosa tão bela,
por uma tênue ferida.
De um lado cantava o sol
De um lado cantava o sol,
do outro, suspirava a lua.
No meio, brilhava a tua
face de ouro, girassol!
Ó montanha da saudade
a que por acaso vim:
outrora, foste um jardim,
e és, agora, eternidade!
De longe, recordo a cor
da grande manhã perdida.
Morrem nos mares da vida
todos os rios do amor?
Ai! celebro-te em meu peito,
em meu coração de sal,
Ó flor sobrenatural,
grande girassol perfeito!
Acabou-se-me o jardim!
Só me resta, do passado,
este relógio dourado
que ainda esperava por mim...
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