| Sua
proposta pôde ser ouvida?
O Presidente Chissano estava acompanhado pelo Ministro
da Segurança da época, Mariano de Araújo Matsinhe.
Fui claro e directo: 'o senhor poderá pensar que não
passo de um maluco, mas estou aqui para lhe pedir autorizacao para
fazer um acordo com a guerrilha', ou seja, negociar um acordo com
a Renamo para comprar a seguranca do projecto.
O Presidente disse: "Eu o ouvi,
mas agora deverá falar com o Ministro da Segurança".
Hospedaram-me numa casa ao lado da
residência presidencial, em Maputo, e eu permaneci durante
uma semana inteira praticamente confinado, sem telefone, sem contactos.
Depois, vim a saber que estavam me investigando.
Era natural: o país estava em
guerra e aparece um brasileiro que propõe um acordo com a
guerrilha visando o carvão de Moatize? Só não
fui preso porque era amigo do amigo do Presidente.
Passada
a semana, o que se sucedeu?
Fui chamado ao seu encontro e ele disse ser impossível
aceder ao meu pedido. Porém, o Presidente, a expressar seu
intenso desejo de acabar com a guerra, mencionou o facto de saber
que eu morara na África do Sul (onde meu pai também
tinha sido Embaixador), e conjecturou que uma maneira de acabar
com aquela situação seria levar o Chefe das Forças
Armadas sul-africano, General Jannie Geldenhuys, a Maputo para uma
reunião entre as partes.
O Presidente inquiriu-me se eu poderia
auxiliá-lo nessa empreitada.
Sinceramente, eu nunca ouvira falar
no Chefe das Forças Armadas da África do Sul, país
que financiava a guerrilha.
Mas, naquela época, eu tinha
36 anos e acreditava tudo conseguir.
Havia
pela frente um desafio de proporções impensáveis...
Fui para a África do Sul, onde conhecia muitas pessoas
por conta dos relacionamentos do meu pai. Perguntando a um ou outro,
encontrei certo dia um sujeito que era muito amigo do meu pai e
muito amigo do General Geldenhuys. Fui ao encontro dele e solicitei
que me apresentasse à autoridade. Resposta: "O senhor
é maluco, mas vou fazer isso".
Foi assim que o General recebeu-me
e nem pôde crer no que ouvira. Frente àquela dificuldade,
não desisti.
Ao contrário, insisti. Esse processo levou seis meses. Em
ajuda, pedi ao Presidente Chissano que enviasse alguém do
seu país - afinal, eu era um brasileiro, sem nenhuma relação
directa nem com Moçambique e nem com a África do Sul
- e ele me mandou um homem da sua confiança. Seguimos para
a Cidade do Cabo, onde encontramos o General e ele se convenceu
de que poderia ir a Moçambique.
Voltei para Maputo, fiz os arranjos
necessários. O que se seguiu foram verdadeiras passagens
ao estilo James Bond.
O que
fez, então?
O General me pediu para telefonar-lhe às 5h da manhã.
Ele estaria na Base Militar de Pretória, dentro do avião.
Avisou-me que iria decolar rumo a Maputo, mas eu deveria informar
quem estaria na pista. Exigiu que eu lá estivesse. Ele iria
baixar, mas teria que me ver, bem como ao Ministro da Segurança
moçambicano. Caso contrário, ele bateria em retirada.
Enfim.
Ele foi, do aeroporto seguiu para a
reunião propriamente dita, da qual, naturalmente, não
participei. Esta reunião foi o início das negociações
que acabaram com a guerra.
As negociações transcorreram
muito bem, até que chegou a um ponto em que havia a necessidade
de haver um encontro entre a RENAMO (a guerrilha), a FRELIMO (governo
moçambicano) e o governo sul-africano. Onde seria possível
este encontro? Não podia ser em Moçambique porque
a RENAMO não iria querer uma reunião lá pelas
razões óbvias; não poderia ser na África
do Sul porque oficialmente o país nada tinha a ver com a
guerra; não poderia ser no Malawi porque a RENAMO tinha bases
neste pais; não podia ser no Zimbabwe porque sempre tomou
parte da FRELIMO...
Sugeri que fosse no Quénia e
o Presidente Joaquim Chissano concordou.
Eu conhecia o então Presidente
do Quénia, Daniel Arap Moi, e negociamos a reunião
entre a FRELIMO e a RENAMO (a primeira que houve), em Nairóbi,
no Hotel Intercontinental.
Naquela época, o mediador chefe
da FRELIMO era o actual Presidente Armando Guebuza.
Isso
tudo visando o desenvolvimento de Moatize.
Tinha acordado com o Presidente Chissano de que se eu colaborasse
para o fim da guerra ele me apoiaria na concess ão de Moatize.
A palavra foi cumprida. Aliás, devo dizer que vejo no Presidente
Joaquim Chissano um grande líder, um sábio político
e homem de palavra honrada.
Quando foi assinado o acordo de paz,
em 1992, fui chamado ao seu encontro e ele me perguntou o que eu
queria.
A concessão
do carvão de Moatize, Sr. Presidente...
Claro. Mas, nesse ínterim, trabalhei em outros projectos,
circulando nos países atrás referidos. Mas, sempre,
concentrado em Moatize. Era um investimento a longo prazo.
O Presidente Chissano honrou a palavra.
A verdade é que, depois de um
certo tempo, a Companhia Vale do Rio Doce (CVRD) titubeou ante o
projecto, o que fez com que o governo de Moçambique passasse
a concessão a uma empresa sul-africana, que acabou por falir.
A Vale do Rio Doce voltou a se interessar, mas a gigante brasileira
passava pela difícil e complexa fase de decisão sobre
a privatização.
Até que a Vale, em 2003, desistiu
do negócio. E o governo de Moçambique decidiu fazer
uma concorrência. No momento em que a concorrência foi
anunciada, a Vale do Rio Doce optou por participar. E aí
teve que participar como todos os outros participantes (BHP, Anglo
America, Rio Tinto e outros). Devo dizer que antes da concorrência,
o Governo de Mocambique tudo fez para que a Vale ficasse com a concessão.
Realmente, era um projecto complicado. Um projecto muito caro, com
investimentos vultuosos e até mesmo a localização
era um empecilho. Além do que era uma área nova para
a CVRD, a do carvão.
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Eduardo
Rio Branco e o Ministro dos Recursos Minerais de Moçambique,
Castigo Langa, no dia da assinatura do Contrato da CVRD |
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"Anos atrás, trabalhei em projectos de reestruturação de grandes organizações brasileiras. Muito do que escrevi
e usei nas minhas aulas foi fruto do que aprendi nestes trabalhos" |
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