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Investigador invulgar

Abílio Manuel Guerra Junqueiro

(adaptação de uma entrevista inédita concedida por António Fonseca à Revista LUSOFONIA)

António Fonseca realiza e apresenta o programa Antologia na Rádio Nacional de Angola há pouco mais de três décadas. Trata-se de um programa que se refere à literatura tradicional oral, uma das áreas de estudos de Óscar Ribas.

Fonseca é membro da União de Escritores Angolanos e docente da Universidade Agostinho Neto onde lecciona a cadeira de Gestão e a prestação de indústrias culturais. Actualmente, está empenhado na escrita de um livro sobre a economia da cultura.

Declarações de António Fonseca

“Tive a oportunidade e o prazer de participar da mesa de escritores durante a conferência internacional sobre a vida e obra de Óscar Ribas.

O trabalho deste autor, particularmente o Missosso, Sunguilando e Ilundo, foi a minha primeira bagagem escrita de ferramentas para fazer o programa Antologia. É evidente que tinha um conhecimento oral da literatura tradicional por vivência própria mas só assumi o desafio porque tinha comigo as leituras de Óscar Ribas e uma boa bibliografia de grande parte da obra do autor.

Portanto, foi uma ferramenta estratégica que me levou a assumir este grande desafio que o programa constitui.”

“Não vivo da literatura
mas sim para a literatura”

(Óscar Ribas)

O tributo à língua portuguesa

“Óscar Ribas terá sido um dos primeiros autores a incorporar na língua portuguesa uma estrutura frásica própria, usando personagens emergentes das estruturas das línguas nacionais angolanas e, por outro lado, a introduzir um léxico emergente, particularmente, do kimbundu e de outras línguas angolanas que veio, seguramente, enriquecer o universo do simbólico e do imaginário da língua portuguesa.

Na linha de escrita do Óscar Ribas, particularmente, no caso do Uanga, há uma recuperação da oralidade e da tradição cultural africana para o contexto citadino. Seguramente, vemos em Óscar Ribas este ardor, esta paixão pela recuperação de valores essenciais da cultura africana ora transposta para o contexto da língua portuguesa.

Na obra de Óscar Ribas, mantém-se viva a chama nacional, nacionalista, quiçá, patriótica, sem dúvida, iniciada pelos intelectuais angolanos do século XIX que utilizavam a literatura para fazer esta marcação de espaço no contexto colonial em que nem sempre os elementos nacionais africanos e angolanos tiveram o reconhecimento que mereceriam pelo seu talento próprio.”

A recolha de literatura tradicional

“Temos no trabalho de recolha da literatura tradicional duas linhas ou duas escolas. Temos muitos autores que trabalharam sobre a literatura oral com uma linguagem erudita para a língua portuguesa, o que levou a perder grande parte da carga de oralidade e de estilo narrativo dos textos tradicionais. E temos uma escola mais recente do pós-independência que procura recuperar a estrutura frásica, lexical e gramatical do discurso narrativo próprio das línguas angolanas para o português falado em Angola, sem a preocupação de grandes erudições do ponto de vista do português padrão.

Isto é que distingue as duas grandes escolas ou linhas de pesquisas em torno da literatura tradicional oral.

Como se sabe, Óscar Ribas cultivou muito a língua portuguesa mas também foi um exímio conhecedor da língua kimbundu, particularmente. Soube jogar com estas duas circunstâncias, sem fugir da erudição que lhe era própria ao português padrão, e trouxe importantes elementos simbólicos das línguas nacionais para o contexto da língua portuguesa. Isso marca decisivamente o trabalho de Óscar Ribas relativamente aos autores, particularmente, os não angolanos, os missionários e administrativos.

Portanto, há uma grande diferença entre os autores, de acordo com a sua postura no contexto cultural angolano. Óscar Ribas, no fundo, acabou por seguir aquilo que os nossos antecessores iam fazendo, como o Cordeiro da Mata, Assis Júnior e outros.”

 
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NOVEMBRO/DEZEMBRO 2009
 
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