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das poesias

 

 

 

 
 

O NOME DE MARIA

Na pitoresca povoação de… onde a relva aveludada corôa, as colinas graciosamente talhadas, vivia uma jovem de 18 anos de idade, encantadora como a rosa dos jardins, pura como o lírio dos valados e modesta como a violeta dos campos.

Maria - assim se chamava - era morena, de corpo esbelto, olhos grandes e negros e um rosto gentil emoldurado por uma farta cabeleira de cor do azeviche.

Maria não era como muitas raparigas da sua idade que estão sempre alegres e risonhas. Era, pelo contrário, melancólica, sempre entregue aos seus pensamentos, porque, sendo pobre, e não tendo já aqueles beijos ternos, aqueles afagos, aquelas carícias, enfim, que só devemos aos pais, pensava maduramente no Futuro que o Destino lhe havia reservado. Sua mãe já não pertencia ao número dos vivos porque só conhecera o fruto das suas entranhas durante 15 primaveras sorridentes; seu pai nem sequer chegou a conhecê-la, porque, antes de Maria ter visto a luz do dia, abandonara a mãe: era pois uma desprotegida da sorte, que só podia amar o que há de mais belo e grandioso: o que a Natureza Criou. O que, porém, mais a torturava, era ver aproximar-se o dia em que ficava sem abrigo, sem pão , porque a criatura que a protegia, já não via com bons olhos a pobre orfã.

O pouco de dinheiro que a sua mãe, à custa de sacrifícios e economias, conseguira juntar, estava esgotado!... E, por isso, a caridade da sua protectora também se esgotara!...
Enfim, eis o dia fatal que chega. E a infeliz, que tão cedo principiava a conhecer o mundo, a vida, esta estrada cheia de lama que todos nós temos de trilhar, uns com mais dificuldades que outros, partiu para os campos sem um olhar de despedida… sem um olhar de compaixão…
Todavia, Maria sofria tudo isso com a maior resignação, porque mais desgraçado se é quando não se sabe sofrer a desgraça.

O sol acabava de se esconder no horizonte, e Vénus - não a deusa da beleza, não a deusa do amor, nem aquela que presidia a todos os prazeres, mas o planeta mais encantador da abóbada celeste - parecia formosa e resplandescente, com aquele fulgor intenso que as estrelas certamente invejam.

(…) As andorinhas, no espaço, chilreavam alegremente, indicando a alegria que reinava no lar conjugal. Os melros, nas árvores, saltando de ramo em ramo, louvavam O Criador por lhes conservar embalados nos ninhos os seus ternos filhinhos.

(…) As folhas das árvores ciciavam mansamente, como que tomando parte da dor que a infeliz sofria, quando alguma coisa ao longe quebra o silêncio da noite.

Era o vibrar das cordas dum violino que acompanha os seguintes versos:
‘Eu sou filho da desgraça,
Minha sina é padecer,
Porque até quem por mim passa,
Inda mais me faz sofrer.
Por mim tenho o mar,
Que nas horas de amargura,
M’acompanha a prantear,
Quando minh´alma tortura’.

(…) Depois que Maria conseguiu adormecer, não tardou que um sonho viesse mergulhá-la profundamente no sono.

Sonhava que mora à beira-mar num confortável chalé, ladeado por um pequeno jardim onde as aves com o seu canto harmonioso alegravam o dia que ela consagrava a fazer as roupinhas para os pobrezinhos. Sonhava também que, muitas vezes, de manhã cedo, vendo o mar todo colorido de verde a espraiar-se preguiçosamente, avistava ao longe, no horizonte, uma barquinha com as suas brancas velas, e que, passado algum tempo, se ouvia o cantar monótono dos pescadores que eram esperados na praia pela algazarra da filharada.
(…) À noite, uma serenata passa pela casa de Maria, e esta, indo já á janela espreitar quem cantava, viu novamente os mesmos estudantes que estavam tocando guitarras, e o louro, cantando a seguinte estrofe de Soares de Passos:

‘Que noite d’encanto!
Que lúcido manto!
Que noite! Amo tanto
Seu mundo fulgor!
Oh! vem, ó donzela,
Não temas, ó bela,
Que à noite só vela
Quem sonha d’amor’.

(…) Depois destes acontecimentos Maria via frequentemente o estudante louro que a cumprimentava cortezmente, dirigindo-lhe vários galanteios.

Por isso não tardou que um dia recebesse uma cartinha de amor.
(…) Augusto - assim se chamava o estudante - certo dia cai da cama, e por conselho médico teve de ir para o campo.

A partida de Augusto para o campo definha a pobre Maria que está sempre em cuidados. No campo Augusto tem ataques de delírio, pronuncia indistintamente o nome daquela que lhe prendeu o coração. Uma febre cerebral e tortura. O médico está sempre à cabeceira do enfermo.

(…) Depois do restabelecimento de Augusto, os dois namorados recomeçaram as suas entrevistas amorosas.

Tudo corria como um barco num mar de rosas, até que um dia Maria começa a perder aquelas lindas cores que cobriam as faces, tem pouco apetite, e sentir umas dores no ventre.
Augusto, desconfiado da situação de Maria, participa ao pai o estado da namorada, e pede autorização para poder casar.

O pai de Augusto, já velho, deu consentimento ao pedido, e mostrou desejos de ver a nova filha que ia possuir em breve.

No dia seguinte estão os três, o ancião, Augusto e Maria, reunidos numa sala ricamente mobilada.

Como Maria se parecesse extremamente com a mãe, o ancião, ao vê-la, sobressalta-se. Quando soube depois a que família Maria pertencia, disse num tom cadenciado:
- Pratiquei uma acção abominável desonrando uma pobre aldeã e abandonando-a com uma creança que hoje infelizmente vive… Essa acção torna-se mais detestável, porque, guardando segredo a um filho que tenho, deu-se a desgraça de…

Aqui neste ponto não pôde continuar, porque a voz embargou-se-lhe na garganta.
Os olhares que Maria e Augusto trocaram entre si, nada podiam explicar o que estavam ouvindo.
Por fim Augusto quebra o silêncio, reguisando:
- Mas…
- Já é tarde… Já é tarde… - redarguiu o ancião.
Voltou novamente o silêncio apenas entrecortado pelos prantos do pai Augusto.
Após alguns momentos, o ancião levanta-se da poltrona em que estava assentado, ajoelha-se aos pés de Maria, e diz com a voz rouca:
- Perdoa-me Maria…
Maria levanta-se do lugar em que estava, recua dois passos, e pergunta:
- Por que se ajoelha a meus pés, meu respeitável senhor?
- Porque és minha filha… - respondeu gaguejando o ancião.
Augusto levanta-se como que fulminado por uma corrente eléctrica, e diz:
- Quero provas.
Sem resposta, o pai tira dum lindo cofre uma carteira que continha um retrato da mãe de Maria e várias cartas.
Efectivamente, as provas eram mais que evidentes.
Augusto desonra sua irmã.
O quadro era triste: Maria estava desmaida; Augusto passeava de um lado para o outro como um maluco; o ancião batia com a mão no peito, dizendo:
- Permite Deus que os homens sejam mais humanos…
Um grande remorso se apossara do ancião. Sentindo perder as forças que ainda tinha, mandou chamar Maria a quem pediu perdão pelo mal que lhe causara. Poucas horas depois delirava, pronunciando a muito custo:
- Perdão… perdão Maria… mal te causei… morro com grande desgosto… perdão… per….
E assim acabou a existência.


Fotos: Eurobrape

 
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NOVEMBRO/DEZEMBRO 2009
 
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