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das poesias

 

 

 

 
 

GENTE DO MAR

É noite. Os galos já cucuritam. Despertados por aqueles originais relógios nocturnos, os três pescadores, de camisola, pano-saia pelos joelhos e um outro pano enrolado à cabeça, caminham para o mar, para a faina quotidiana. Sob o impulso de seus braços vigorosos, arrastam uma canoa para a água, a qual, agora accionada por remos, serpenteia para o largo.

Anzois lançados, Sebastião e Domingos, os dois homens mais velhos, acendem os seus cachimbos de barro. E quando fumam, amassam a vida, puxando, de quando em quando, um peixe graúdo.

No alto, as estrelas denunciam o Além; em baixo, o mar espiritualiza a dor universal; em redor, a soledade impõe-se como força de meditação.

Agostinho, moço dos seus vinte anos, vagueava através de ternas lembranças. Teresa, surgindo-lhe provocatoriamente, inflamara-o com o seu negro olhar. No enlevo, libava as promessas de amor da donzela, seus caprichos, seus ciúmes, todo o microcosmo de futilidades que entontecem o coração. A espaços, respirava fundo, semelhando haurir, juntamente com o éter, o bafo da felicidade. (…)

Com o alvoroço inexprimível, saboreava o diálogo travado horas antes de se deitar. Na sua voz arrastada, ouvia-lhe contar os pormenores das aquisições feitas nesse dia. Os panos, as panelas, os pratos e outras miudezas, tudo, tudo, já ela tinham comprado. O alembamento, felizmente, já estava doado: Kibuko, esse generoso espírito, dera-lhe quanto desejara. Para tranquilidade do futuro, o pai presenteara-o com uma canoa. Assim, no dia seguinte, ia-se amigar com a Teresa.

Em virtude das últimas excitações talássicas, Teresa não queria que ele fosse à pesca. (…)
No azul, patos grasnavam, colhendo a trechos, com os grandes bicos, um peixe miúdo. Dos altos coqueiros, espaçadamente distribuídos em pequenos maciços, demarcadores de sanzalas piscatórias, rebentavam vozes ásperas de corvos. E o oceano, humilde, rojava-se numa infindável endeixa. Qual bando de gaivotas, várias moças mariscavam mexilhão. Figurando esgaravatar, também com os pés escavavam a areia, e depois, agilmente, colhiam o fugidio molusco. (…)

Agostinho, apesar de já a ter visto muitas vezes, sentiu-se canibal de amor. Então, chegando-se, galanteou-a:

- Aiué! O que a gente gosta, Deus não nos dá! Só queria ser o mar, para te dar muito marisco…
Sem o encarar, a resposta saiu do labor:
- Ih! Só me davas marisco? Mais nada?
- E também muito peixe… Dava-te tudo, para que tivesses lindos panos, brincos de ouro, pulseiras, enfim, o que quisesses!
- E como homem, não me podias oferecer tudo isso? - Gracejou Teresa, fixando-o com luz penetrante.
Com acentuação trémula, Agostinho sustentou:
- Só se fosses minha mulher…
- Ah! ah! ah! O homem que me pretender, primeiro tem que me aparecer em sonho!
(…)
- Se a calemba assim continuar ? - opina Domingos, suspendendo a cachimbação - temos que chamar o quilamba, como das outras vezes: a sereia deve estar zangada connosco. E para a sossegarmos, devemos homenageá-la com um festim.
- Zangada connosco, não! Nós não temos culpa nenhuma, não lhe fizemos nenhum mal. Os brancos, sim, esses é são os culpados. Por que partiram as pedras onde ela morava?
- As pedras que ficavam atrás da fortaleza, perto da ponte? - Demanda curiosamente Agostinho.
- Aí mesmo. Pois nessas pedras, o quilamba estendia-lhe a mesa: numa esteira nova, com a sua toalha nova, deitava em pratos também novos, toda a qualidade de comida - comida dos brancos e comida dos pretos. E os vinhos? Eh! Toda a qualidade também: era vinho tinto, vinho branco, vinho do Porto, aguardente, e também quitoto-e-maluvo, tudo servido em vários copos novos. E os talhares eram também novos. Hum! Queríamos que ela ficasse contente connosco. (…)
Agostinho admira-se:
- Então as pedras deitaram sangue?
- Deitaram, e bastante. Nunca te contaram isso? Pois esse sangue devia ser as lágrimas da sereia. - Responde o pai com firmeza.
- E o castigo dos brancos é ficarem sem a ilha, que se está rebentando aos bocados.
- E toda ela vai desaparecer, como desapareceram as pedras.
(…)
Enquanto os dois pescadores, principalmente o pai, nadam com mais afã, de terra, outros pescadores tentam socorrê-lo. Porém, esforços inúteis: premido pelo batel, Agostinho, fortemente contundido, era já cadáver!

Por Deusa Oliveira, com assistência de Anselmina Bamba
e Elisângela Bartolomeu, e imagens do autor retiradas
da Fotobiografia de autoria de Gabriel Baguet Jr

 
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NOVEMBRO/DEZEMBRO 2009
 
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