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Falcão
"Considero-me uma amante da arte de fazer jornalismo
e da arte do entretenimento"

Toda a família gosta de farra?
Toda! Eu sou o que sou porque a minha família gosta muito de festa. Desde muito miúda, entrei neste ambiente de farras e festas. Os meus tios, os irmãos da minha mãe, muito em particular, gostam muito de festas. Antigamente, nos anos 80, eles já proporcionavam grandes farras de quintal. Eu cresci neste meio e, se calhar, devo a eles o facto de ser uma pessoa muito espontânea, aberta e alegre. Suguei deles tudo isso. Até hoje, quando temos as nossas festas de quintal, as minhas tias estão sempre muito alegres e isso me faz bem.

Além de você, há mais alguém na família na vida artística?
Não. Nós não temos, a par de mim, mais ninguém na família que seja artista. Claro que tenho tias muito boas na culinária, fazem pratos da terra de forma espectacular. Estão ligadas à decoração, são mulheres com muito bom gosto, mas cantores na família não temos, nem escritores. Posso dizer que na família sou aquela que mais se evidencia no que diz respeito ao mundo das artes.

Chama a atenção sua correcção no uso da língua portuguesa. Isso se deve a alguma razão em especial?
A minha mãe é professora e é muito exigente. Mesmo quando estou a fazer rádio, a minha mãe está sempre atenta e sempre que alguma coisa não sai perfeitamente, encontro em casa um caderno de reclamações. Ela está sempre a criticar e a afinar a máquina. A minha mãe é muito exigente no que se refere à língua.

E o seu pai?
O meu pai é um pouco mais rígido. O meu pai e a minha mãe já estão separados. Ele é um homem de carácter, é de uma lisura e de uma rectidão muito grandes. À minha mãe e ao meu pai, sem falsas modéstias, devo esta rectidão e carácter que acredito ter. Tenho um pouco de cada um deles.

Como é que foi parar à Rádio?
Ainda muito jovem. Tinha 14 ou 15 anos quando comecei a fazer o Caluanda Piô, pelas mãos do Quim Freitas. Eu tinha uma enorme curiosidade em saber como se fazia rádio, como as vozes saiam daquela caixinha. Fui persistindo e incomodando o Quim Freitas. Aliás, ele é de casa, é meu primo e tenho por ele um carinho muito grande. Dado que sempre tive uma espontaneidade muito grande, rapidamente passei do escalão infantil para o juvenil. Isso foi em pouco tempo, cerca de um ano, se tanto. Hoje estou no quadro de trabalhadores da Rádio Nacional de Angola com muito orgulho.

A tendência mundial da rádio é de levar artistas, principalmente músicos, para animarem programas. Você se sente pioneira neste contexto de cantores que animam programas radiofónicos em Angola?
De certa forma, sim. Na altura em que entrei para a Rádio, poucas eram as figuras públicas, nomeadamente cantores que se dedicavam à rádio e à televisão. Hoje já há muito mais. Na altura em que entrei para a Rádio Nacional de Angola quase nenhum músico fazia rádio.

Fazer programas em directo na Rádio e sobretudo interagindo com o público, como é o seu caso, podem gerar algum facto inusitado. Já passou por algum?
Graças a Deus, sempre tive a capacidade de contornar situações negativas que muitas das vezes acontecem no programa. Pessoas há que ligam com o intuito de levar para o programa uma energia negativa e desmoralizar e, no caso, a mim porque eu dou a cara e porque é um programa em directo. São poucas as vezes em que isso acontece. Graças a Deus, tenho um público muito bom que me respeita e que busca energia positiva para encarar a vida. Quando tentam me desmoralizar publicamente, tenho um bom Deus que me dá a faculdade mental para contornar a situação, dando a resposta no momento certo. Aliás, já levo cerca de dez anos de rádio e a isso já nos habituamos, com certeza.

O que nos diz em relação ao melhor radialista de Angola?
Temos colegas que, de facto, honram a classe jornalística. Eu não me considero jornalista enquanto tal. Considero-me uma amante da arte de fazer jornalismo e da arte do entretenimento. Eu sou animadora de programas radiofónicos, sou uma locutora, não me considero jornalista mas tenho uma paixão muito grande pela profissão. Gosto de fazer rádio. A classe jornalística está a crescer muito bem em termos de profissionalismo e seriedade. Infelizmente, tal como cresce o profissionalismo e a seriedade, a mediocridade de outros nos assusta.

Que opinião tem sobre a música que se faz actualmente em Angola?
Olha, tenho uma opinião que se vai manifestar feliz e ao mesmo tempo um pouco preocupada. A nossa música cresceu em quantidade mas começa a preocupar-me um pouco a qualidade das obras que são colocadas no mercado. Hoje em dia, a todo e qualquer preço, as pessoas querem ser famosas e vão descurando a qualidade das letras e das músicas que colocam no mercado. As pessoas querem apenas aparecer mas o conteúdo, aquilo que enriquece o bolo como tal, está a ser descurado.

A juventude não está a pesquisar, não está a procurar os nossos valores de raiz e, de facto, isso me preocupa muito. O que é dos outros nos influencia mas o que fazemos com a nossa riqueza cultural pode influenciar os outros. Isto não está a acontecer. Então é importante que sejamos não só influenciados pelos ritmos dos outros mas que saibamos influenciar os demais com aquilo que fazemos e há que ter o cuidado para que não haja um assalto cultural.

Nós, a juventude, temos a missão de perpetuar aquilo que é nosso, culturalmente falando. Preocupa-me muito também o facto de termos pouco domínio das nossas línguas nacionais. Muitas das vezes cantamos até em inglês para furar outros mundos. Não digo que isto não deva ser feito mas é importante que façamos como o Youssou Ndour que não deixa de cantar na sua língua materna. Ele é do mundo, é um artista do mundo, todo o mundo o conhece como é o caso de Angélique Kidjo. É importante que a nossa juventude tenha a noção disso. O comercial é bom mas é possível fazer dos nossos ritmos algo também comercial.

 
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NOVEMBRO/DEZEMBRO 2009
 
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